Brasil desperdiça potencial econômico da biodiversidade


O Brasil se orgulha de ter a maior biodiversidade do planeta. Somadas as riquezas biológicas da Amazônia, cerrado, mata atlântica, Pantanal e caatinga, o País abriga mais espécies de plantas, animais, fungos e bactérias do que qualquer outro. Ótimo. Mas e daí? Para que serve essa biodiversidade? Quanto dessa riqueza biológica está sendo convertida em riqueza econômica e desenvolvimento para o País – além de render belas fotografias?
“Muito pouco” até agora, segundo especialistas consultados pelo Estado às vésperas da 61ª reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que começa hoje à noite em Manaus. As estatísticas mostram que o tão alardeado e cobiçado potencial econômico da biodiversidade brasileira ainda está longe de ser capitalizado a contento.
O Estado que serve de anfitrião para o evento ilustra bem isso – com um território gigantesco e 98% de sua cobertura vegetal original preservada, o Amazonas tem mais de 1,5 milhão de quilômetros quadrados de floresta tropical intacta, habitada por uma riqueza incalculável de espécies. Mas qual é a importância dessa biodiversidade na economia do Estado?
“Não tenho um número exato para te passar, mas é próximo de zero”, diz o presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), Odenildo Sena. O Estado com a maior área de floresta tropical do mundo sobrevive da produção de motocicletas e aparelhos eletrônicos na Zona Franca de Manaus.
A importância da biodiversidade na pauta de exportações brasileira também é pequena e fragmentada. Muitos dos principais produtos do agronegócio não têm raízes na biodiversidade nacional. Soja, café, cana-de-açúcar, laranja, gado zebuíno – todas espécies exóticas, trazidas de outros continentes e adaptadas pelo esforço de cientistas e produtores rurais.
Entre os produtos “nativos” do Brasil, o que mais pesa na balança comercial é a madeira, com um efeito colateral gravíssimo, que é a destruição da floresta. Quebrar esse paradigma – encontrar maneiras de transformar riqueza biológica em riqueza econômica sem acabar com a biodiversidade no processo – é um dos maiores desafios da ciência na Amazônia. “Não queremos manter um santuário ecológico. Temos 25 milhões de pessoas na região que precisam sobreviver”, argumenta Sena. “Precisamos tirar proveito dessa biodiversidade, e para isso precisamos pesquisá-la, gerar conhecimento sobre ela.”
POTENCIAL IGNORADO
O primeiro desafio é simplesmente saber o que existe na floresta. Mais de 50 mil espécies de plantas e animais já foram catalogadas na Amazônia brasileira, mas os próprios cientistas estimam que isso representa, no máximo, 10% da biodiversidade real do bioma. Sem contar os microrganismos, de grande interesse para a indústria de biotecnologia, cuja variabilidade está na casa dos milhões.
Além de investir na descoberta de novos produtos – que podem ser desde uma molécula até uma fibra, uma essência, uma bactéria, um peixe ou uma árvore inteira -, é preciso focar esforços nas espécies já conhecidas, diz o pesquisador Alfredo Homma, economista da Embrapa Amazônia Oriental, em Belém. “Há muitos produtos com potencial econômico na Amazônia que não recebem a devida atenção”, diz ele. “Biodiversidade não é só madeira, não é só a cura do câncer. Também é borracha, açaí, castanha, palmito, cacau.”
Os mercados da Amazônia estão abarrotados de produtos oriundos da natureza – frutas, fibras, óleos, ervas, peixes e uma infinidade de sabores e odores típicos da cultura regional. Mas são poucos os que atingem escala industrial. Mesmo exemplos de sucesso internacional, como o açaí e a castanha-do-pará, permanecem associados a sistemas extrativistas de baixo rendimento e pouco valor agregado. Na falta de tecnologia e de cadeias produtivas bem estruturadas, a região tem dificuldade para ir além do fornecimento de matéria-prima.
“Não é catando castanha e cortando seringa no meio do mato que vamos resolver o problema. Isso só funciona enquanto o mercado é pequeno. Precisamos de escala”, completa Homma, que será um dos 300 palestrantes da reunião da SBPC. “Vai chegar um momento em que a demanda do mercado vai superar o que a cadeia extrativista pode oferecer”, reforça Peter Mann de Toledo, presidente do Instituto de Desenvolvimento Econômico, Social e Ambiental do Pará (Idesp). “O que não pode acontecer é crescer achando que o extrativismo vai suprir a demanda do mundo. O crescimento tem de ser planejado, organizado, se não as pessoas vão começar a devastar a floresta para plantar açaí.”
A solução, segundo os pesquisadores, passa por um esforço intensivo de desenvolvimento científico, tecnológico e industrial para agregar valor e qualidade aos produtos da floresta – de modo que possam ser explorados de forma não só sustentável, mas lucrativa.
“Várias vezes já descobrimos uma substância com potencial de uso mas abortamos o projeto porque a exploração não era sustentável. Precisávamos de muita planta para obter a quantidade de matéria-prima necessária”, conta Marcos Vaz, diretor de sustentabilidade da empresa de cosméticos Natura. É nessas situações que a ciência precisa entrar em cena – em parceria com a indústria – para entender a ecologia das espécies, desenvolver métodos de cultivo ou até sintetizar as moléculas desejadas. “A pesquisa tem de ir além de descobrir o uso para alguma coisa, tem de ir até o manejo”, afirma Vaz.
O mesmo esforço que foi feito para desenvolver as indústrias da soja, da cana e de outras espécies exóticas precisa ser feito para os produtos nativos da Amazônia, dizem os pesquisadores. “Temos um desafio técnico-científico que é inescapável”, diz Antônio Galvão, diretor do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT).

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O Pantanal (Brasil) e sua biodiversidade

Há mais de dez anos, o trabalho incansável dos biólogos ajuda a proteger aves que estão ameaçadas. É arrebatador. No coração da América do Sul, pulsa um paraíso natural. O Pantanal tem 200 mil quilômetros quadrados. A maior parte, mais de 140 mil quilômetros quadrados, está no Brasil, nos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
São caminhos que os pesquisadores Arnildo e Vali Pott conhecem bem. Em quase 30 anos, eles já identificaram cerca de duas mil plantas pantaneiras. O bioma tem espécies de diferentes regiões – como o mandacaru da caatinga, o cambará da Amazônia.
-“A semente é levada pelo vento”, comenta o engenheiro agrônomo Arnildo Pott.
Diversidade também no céu e nas árvores: mais de 400 espécies de aves, como cabeças-secas, tuiuiús, garças. Há mais de dez anos, o trabalho incansável dos biólogos ajuda a proteger as que estão ameaçadas.
A paisagem também guarda fenômenos intrigantes: lagoas de água salgada, onde nem jacaré vive. Nas margens, areia fina feito de praia. Diz a lenda que o Pantanal já foi o mar dos xaraés. Será?
“Mar não. Foi provavelmente um grande deserto”, diz o geólogo da USP Paulo Boggiani.
O geólogo e professor da USP, Paulo Boggiani, explica que o Pantanal é fruto das mudanças climáticas: “Provavelmente não tinha essa vegetação. Era toda essa areia se movimentando. Com a entrada de um clima um pouco mais úmido, por volta de cinco, seis mil anos atrás, a vegetação vai se colocando e segurando essa paisagem. Acho que isso é importante ressaltar: que essa paisagem se mantém em função da vegetação”.
Refúgio de 120 espécies de mamíferos. Bichos ameaçados pelo desmatamento – que se revela nas carvoarias. O que encanta no Pantanal é a capacidade da natureza de surpreender os visitantes. A paisagem muda a cada estação. O equilíbrio depende do sobe e desce das águas. Os ciclos de cheias e secas renovam a vida pantaneira todos os anos.
Mas mesmo esta incrível capacidade de renovação sofre com a pesca predatória e ilegal. A Embrapa já dispõe de um banco de sêmen de peixes nobres – uma garantia de repovoamento no futuro.
O Pantanal é lugar de gente corajosa, simples, que entende os sinais da natureza. Em 35 anos como peão pantaneiro, João viu a paisagem mudar: “Mudou bastante, principalmente a cheia, que em um tempo desses agora era época da cheia, agora está seco”.
Quem vive aqui conhece os contrastes, o que muito brasileiro não sabe é que o Pantanal tem dono: menos de 2% é de terras públicas.
Para pantaneiros tradicionais, abrir as porteiras ao turismo e ganhar dinheiro com preservação pode ser uma solução. O desafio de todos é manter a paisagem assim.

Vírus se multiplicam em lago da Antártida, revela estudo

Grupo detectou mudanças de DNA com tempo quente.
Pesquisas na área ainda são incipientes.

Foto: Lopez-Bueno/Science

Campo não permanente de pesquisas espanhol na Península Byers, Ilha Livingston, Antártida (Foto: Lopez-Bueno/Science)

Uma nova pesquisa publicada na “Science” mostra que lagos antárticos abrigam uma vicejante comunidade de vírus com uma ecologia muito específica, capaz de dar conta das condições sazonais extremas. Cientistas já identificaram uma grande variedade de bactérias, assim como micro-organismos, musgo e uma pequena variedade de crustáceos. Mas o estudo sobre esses vírus em lagos e outros sistemas aquáticos está ainda engatinhando.

Alberto López-Bueno, do Conselho Superior de Investigações Científicas, em Madri, e colegas de várias instituições acadêmicas colheram amostras do Lago Limnopolar, na ilha antártica de Livingston, e conduziram um estudo “metagenômico”, sequenciando os genes de múltiplos vírus na água.

Foto: Lopez-Bueno/Science

Estudo sobre vírus em lagos e outros sistemas aquáticos antárticos ainda é incipiente (Foto: Lopez-Bueno/Science)

Eles verificaram uma mudança de padrão no DNA dos vírus após o derretimento de gelo durante o verão, provavelmente, em parte, por causa da multiplicação de algas, seus hóspedes. Vírus diversos ‘doam’ genes especializados que organismos hospedeiros podem explorar a fim de auxiliar sua sobrevivência sob condições ambientais mutantes. O artigo “High Diversity of a Viral Community from an Antarctic Lake” sai na edição desta semana da revista “Science”.

Estudo mostra que aquecimento global pode aumentar temperatura da Amazônia em 10 graus/ Study shows that global warming may increase the temperature

Um novo estudo do Departamento de Meteorologia Britânico prevê o aumento da temperatura do planeta em até 4 graus. Esta elevação pode atingir principalmente regiões como a Amazônia, onde a temperatura poderá aumentar em até 10 graus.
A previsão é de que o cenário se torne realidade no ano de 2060, quarenta anos antes do anunciado pelo Painel Governamental para Mudanças Climáticas.
José Antônio Marengo (pesquisador do Inpe), , o ser humano tem condições de se adaptar às mudanças, mas a biodiversidade não.
“A biodiversidade não tem essa capacidade de se adaptar tão radicalmente como o ser humano. Basicamente a floresta poderia sumir e ser substituída por outra vegetação. Mudando a vegetação, muda o clima. E o clima da Amazônia regula o clima de outra regiões da América do Sul e do mundo, o que faria um efeito dominó.”
Segundo o pesquisador, não se pode reverter o cenário previsto, mas é possível adiar o aumento da temperatura.
A mudança climática do planeta é um fenômeno natural, mas que está sendo acelerado pelo ser humano. A queima de combustível fóssil, resultante dos carros e das indústrias, e a queima de biomassa, consequência do desmatamento, é o que mais tem causado o aquecimento global.
O pesquisador ressalta ainda que o aumento da temperatura da Amazônia poderá comprometer a produção de soja em 40% e a perda de energia elétrica em até 8%.
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Aquecimento Global acelera a perda da biodiversidade/ Global warming accelerates the loss of biodiversity

O ritmo de perda da biodiversidade no mundo todo se acelerou nos últimos anos e será impossível cumprir com os compromissos internacionais de reduzir esta tendência até 2010, advertiu neste domingo um grupo de cientistas.
Em abril de 2003, ministros de 123 países se comprometeram a alcançar, até 2010, “uma redução significativa da atual taxa de perda de biodiversidade em nível local, nacional e regional, como uma contribuição para atenuar a pobreza e em benefício de toda a vida sobre a Terra”.
No entanto, seis anos depois, não só não foi reduzido o ritmo de redução, mas ele aumentou até chegar a extremos alarmantes, segundo os especialistas. “Com toda segurança não vamos cumprir o objetivo de reduzir a perda de biodiversidade até 2010 e, portanto, também vamos descumprir as metas ambientais dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio de 2015”, afirmou Georgina Mace, vice-presidente do Diversitas.
Os especialistas concordam que o desmatamento, tanto para cultivar o solo quanto para a exploração de madeira, é a principal causa da perda de biodiversidade no planeta.
Biodiversidade
Pode ser definida como a variedade e a variabilidade existente entre os organismos vivos e as complexidades ecológicas nas quais elas ocorrem. Ela pode ser entendida como uma associação de vários componentes hierárquicos: ecossistema, comunidade, espécies, populações e genes em uma área definida. A biodiversidade varia com as diferentes regiões ecológicas, sendo maior nas regiões tropicais do que nos climas temperados.


Diversidade biológica

” significa a variabilidade de organismos vivos de todas as origens, compreendendo, dentre outros, os ecossistemas terrestres, marinhos e outros ecossistemas aquáticos e os complexos ecológicos de que fazem parte; compreendendo ainda a diversidade dentro de espécies, entre espécies e de ecossistemas. (Artigo 2 da Convenção sobre Diversidade Biológica)
Para conhecer a lista das espécies ameaçadas de extinção acesse o link: http://www.mma.gov.br/port/sbf/fauna/index.cfm